25 novembro, 2007

A DESMISTIFICAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO ATRIBUÍDO AO CARVÃO

A DESMISTIFICAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO ATRIBUÍDO AO CARVÃO.
(um breve ensaio/reflexão)







Todo município ou região tem um fator ou fatores que promovem ou contribuem para o seu desenvolvimento, no caso do sul de Santa Catarina, o carvão apenas ‘’contribuiu’’, não foi determinante como pregam seus defensores e seguidores (inclusive historiadores! Todos obviamente, com patrocínio do setor carbonífero) Pode até haver sido especificadamente para o município de Criciúma. Não fosse o carvão poderia ter havido um desenvolvimento como qualquer outro, como Joinville, Blumenau, Tubarão, Chapecó ou Lages, que tiveram seus respectivos fatores ou fomentos localizados.
A região sul teve seu crescimento baseado em vários fatores, começando pela sua situação geográfica, o clima, a miscigenação de raças, paralelo a existência de outras atividades como a agricultura, a cerâmica, a metal mecânico, o plástico, o vestuário e calçado apenas para citar alguns exemplos. Atribuir ao carvão o desenvolvimento alcançado na região sul de SC sempre de uma forma heróica e única, sem apontar o altíssimo custo cobrado da natureza e a degradante herança do passivo ambiental, considerado como um dos 14 mais críticos do país, pelo Decreto Federal No. 85.206/80, é no nosso entender uma forma tendenciosa e irresponsável de resgatar a história, portanto questionável. Aliás a historiografia catarinense tende a ser tendenciosa em vários aspectos, obscurecendo e omitindo muitos fatos que não são tão ou mais relevantes que os que são sempre relatados.


Os primeiros colonizadores desta região (mais precisamente onde foi encontrado carvão), eram predominantemente italianos e alemães (em menor quantidade), com criatividade e capacidade para desenvolver outra atividade que não fosse a exploração do carvão, até porque não tinham experiência alguma com mineração em seu país de origem, principalmente a Itália, portanto o desenvolvimento ou crescimento da região viria de uma forma ou de outra e com certeza sem esta brutal e constatada degradação ambiental.
Os imigrantes que adotaram a mineração quando tinham dificuldade (nas décadas 40 e 50) em adquirir mais terras para expandir a atividade, mandavam ameaçar os colonos que não queriam vender suas terras, chegando em alguns casos às vias de fato, de acordo com as histórias populares, como também existem suspeitas que foram, junto com os bugreros, os responsáveis pelo extermínio dos índios no final do século XIX e início do XX). Os que permaneceram na agricultura (a grande maioria), foram cerceados pela poluição, sem condições de desenvolver qualquer idéia evolucionista já que a água de toda a bacia hidrográfica passou a ficar comprometida com o baixo pH. Por isso procuraram outras alternativas, como por exemplo, a cerâmica, que acreditamos, tenha sido realmente a grande propulsora do desenvolvimento da região sul de Santa Catarina.


Por outro lado, ainda não sabemos determinar quais os fatores que influenciaram na perversa política trabalhista adotada pelas mineradoras, se foram as próprias leis de mercado ou se foi a influência capitalista de visar exageradamente o lucro em detrimento do trabalho (a tal de ‘’mais valia’’ que tanto Marx falava), ‘’explorando’’ também o trabalhador mineiro, que até hoje tem que se ‘’enfiar’’ embaixo da terra todos os dias para conseguir o sustento de sua família, num ambiente insalubre e inseguro, sujeito a adquirir a temível pneumoconiose, sem uma remuneração digna pelo árduo e heróico trabalho que realiza, já que é reconhecidamente uma classe desprivilegiada social e economicamente, portanto injustamente ‘’explorada’’ também. Enquanto que os donos de minas ao longo desta breve história da formação da região carbonífera tornaram-se poderosos grupos, configurando ‘’a privatização do lucro e a socialização de tudo que não mais interessa’’, desde a baixa qualidade de vida ao premeditado caos da poluição.


Não precisa ser economista para saber que existem muitas formas de concepção e interpretação sobre ‘’desenvolvimento’’, pois depende muito do enfoque e dos interesses em questão, no nosso entender é aquele que distribui a riqueza proporcionalmente, o dono produtor por exemplo, obviamente ganha mais que seus trabalhadores, afinal o capital e a responsabilidade são suas, mas a mão de obra precisa ser bem remunerada e valorizada com bons salários, para inclusive produzir mais e com qualidade, obtendo também mais qualidade de vida para todos. E como é de conhecimento público, a atividade carbonífera do sul de Santa Catarina é ingrata com a natureza e com os trabalhadores mineiros, toda riqueza é investida em outros ramos pertencentes aos poderosos donos das mineradoras.


Se o ‘’ouro negro’’ carvão teve a sua respeitável parcela de contribuição ao progresso e crescimento, diga-se de passagem, apenas de Criciúma, não devemos esquecer de registrar o apoio dos governos, desde as administrações municipais até a esfera federal, com gordurosos e facilitados empréstimos, isenção de impostos, subsídios e tantas outras vantagens que nenhum outro setor jamais ganhou, enfim uma atividade que sempre foi protegida pelo estado e pela classe política local, regional, estadual e nacional. Mas em contrapartida, para o trabalhador mineiro pouco o Estado atendeu, não o protegeu nem mesmo quando seus pulmões foram engessados com a poeira do carvão, apenas reduziu a aposentadoria para 15 anos, quando que deveria ser 10 anos ou então robôs cibernéticos ou, porque não deixar este recurso fóssil para as futuras gerações, quando todos os outros recursos superficiais e renováveis estiverem esgotados, atendendo assim com as inovadoras e científicas anotações da Agenda 21.


Italianos de terceira e quarta geração lutam desesperadamente contra descendentes italianos da mesma geração para manter suas terras produtivas (propriedades escrituradas) para as futuras gerações, enquanto que outros italianos querem minerar sob estas terras (estes têm concessão). Um conflito novo, em pleno início do século XXI, heroicamente iniciado com a resistência do Morro Estevão e Albino em 1996, que não permitiram a extração de carvão embaixo das suas terras, pois tinham certeza que os lençóis freáticos seriam mais cedo ou mais tarde comprometidos. Agora a resistência é em Santa Cruz, uma localidade rural do município de Içara, diferentemente das comunidades de Criciúma, Siderópolis, Treviso, Urussanga, Lauro Muller e Forquihinha que outrora se renderam às pressões dos italianos mineradores, vendendo suas terras, seu saudável trabalho na superfície para trabalhar sob as mesmas como empregados explorados.
OBS.
Não venham os dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores Mineiros dizer que está tudo bem, porque não acreditamos, já que é perceptível a pobreza dos mineiros e, é público e notório que defendem mais os interesses das mineradoras do que os direitos dos trabalhadores mineiros, principalmente depois que passaram a envolver-se com política partidária.


Finalizando nossa breve análise e reflexão socioambiental, mas honesta, baseada em fatos, sobre a influência social, ambiental e econômica da atividade carbonífera nos municípios onde houve ou ainda há mineração, ou também onde nunca houve, mas são prejudicados como Araranguá e Maracajá, que não podem utilizar a água para o consumo humano e para a dessedentação de animais dos rios Araranguá e Mãe Luzia respectivamente, como também centenas de famílias são impossibilitadas de pescar para o complemento da ceia alimentar. Por outro lado, vejam o exemplo de Siderópolis, um dos municípios mais degradados do Brasil, com sérios problemas sociais e econômicos, exclusivamente por causa da mineração que usou e abusou dos seus recursos naturais, enriqueceram e foram embora deixando um intenso passivo ambiental.
Outro exemplo é Capivari de Baixo, onde o carvão é queimado pela multinacional Jorge TRACTEBEL Lacerda (856MW), município com péssima qualidade de ar que afeta a saúde pública, principalmente com doenças pulmonares, haja vista a Ação Civil Pública impetrada contra a usina pelo Ministério Público Federal MPF (e ainda querem a USITESC queimando carvão em Treviso). Capivari é outro município economicamente pobre, apesar de receber os impostos da maior usina termelétrica da América Latina, pelo visto ‘’bem’’ investidos somente na luxuosa Câmara de Vereadores .


Existe uma forte tendência mundial de acabar com a fonte energética derivada da queima do carvão mineral, em cumprimento ao Protocolo de Kyoto (do qual o Brasil é signatário), já que é considerada uma das maiores emissoras de CO2 do planeta, desde o século XIX, portanto responsável maior pelo aquecimento global, conseqüentemente pela intensidade e freqüência das adversidades e mudanças climáticas que tanto mal tem causado a humanidade. Paralelo ao exposto acima, a atividade também sofre um intensivo processo de desgaste junto à opinião pública, que poderia ser menos pior se investissem na devida recuperação dos estragos causados a natureza, se proporcionassem uma qualidade de vida ‘’digna’’ ao mineiro, se não fossem tão arredios (covardes) no debate com a comunidade ambientalista e se não fossem tão inverídicos (mentirosos) quanto às informações e dados sobre o setor carbonífero. Como também impõem uma rigorosa determinação nos meios de comunicação de não permitir a divulgação de nada que venha de encontro aos interesses do setor, é uma descarada censura, ninguém pode falar em meio ambiente na imprensa escrita porque é da mineradora tal, não pode falar de poluição na rádio porque pertence ao grupo minerador tal, a outra rádio também, a outra é porque é do amigo do dono da mineradora e assim vai, chegando até na TV, porque são fortes clientes.


Conclusão:
São por estas razões apontadas que acreditamos que a mineração vai acabar antes do que projetam seus defensores, porque se acham donos absolutos do direito de uso da terra não vendo com isso necessidade de cumprir com as normas da legislação que determina a recuperação ambiental, porque viria a reduzir o sedutor lucro. Porque são prepotentes e arrogantes, não reconhecem a dinâmica e performance do movimento socioambientalista, que dedicam seu tempo de forma estritamente voluntária por uma justa causa em defesa da natureza e uma melhor qualidade de vida pra todos.
O mesmo lobby privado / político que “criou” o Comitê Gestor para contornar a sentença de 2000, que articula maquiavelicamente (e muito bem!) todos os interesses do setor, vem apregoando a campanha do verde para o carvão, da queima limpa e emissão zero, além de prometer que novas tecnologias de exploração do carvão não poluem o meio ambiente. Podem vir com todos os discursos americanistas que não irão convencer, já que comprovadamente o minério carvão é o combustível fóssil mais poluente do planeta, desde a extração até a sua queima, em qualquer país, tanto em desenvolvimento quanto nos desenvolvidos. O futuro energético está indiscutivelmente nas as fontes renováveis.


Curiosidade:
Você sabia que a doença do pulmão negro acometida pelos mineiros, reconhecida como pneumoconiose tem o nome cientifico de ‘’Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose’’, a maior palavra da língua portuguesa e inglesa.







Tadeu Santos
E-mail: tkane@contato.net - BLOG: http://tadeusantos.blogspot.com/
Sócios da Natureza – ONG Fundada em 1980.
Araranguá, SC, .. fev 06



Outros textos sobre o mesmo tema, que podem encontrados no site ou no blog citados acima:

· Pulmões e Mentes poluídas
· Rio Araranguá: Omissão e Poluição
· Verdades não ditas sobre o carvão mineral
· Comitês de Bacias, antes de tudo...
· Medo do que os agricultores irão falar
· Poluição do carvão ameaça Aqüífero Guarani
· Usina a carvão USITESC - Treviso/SC
· Falta de consciência.
· Em defesa do rio Araranguá, sempre!
· AP USITESC e AP Esplanada.
· A insustentável poluição do carvão.
· Histórico provisório da ONG Sócios da Natureza (1980 a 2006).
· Monografia (TCC História - UFSC) sobre Sócios da Natureza / Juliana Vamerlati Santos.
· Vênus e o Efeito Estufa (Texto extraído do DVD Cosmos, de Carl Sagan)









Sócios da Natureza – ONG Fundada em 1980.
(PRÊMIO FRITZ MULLER 1985)


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